26 fevereiro 2007

Guerra e Paz

Reveste-se do mistério que a falta de tempo chama.
Despe-o perante o óbvio.

Perde os dias por que passa.

Ganha as horas que por ele passam.

07 fevereiro 2007

Beira-mar

Ondas entrelaçadas.
Areias de corais gastos no tempo.

A perenidade de um abraço.

Enquanto a chuva da noite esconde um arco-íris.

22 janeiro 2007

Porque não?

- Sabes? Acho que se dá uma importância extrema à necessidade de categorizar todo e qualquer estímulo que sofremos.

- Compreendo-te. Para quê o verbo que tão cedo se torna vão?

- Porque não deixar apenas fluir impulsos e emoções? Porquê entrar em processos desgastantes de busca de semelhantes através de algo tão volátil como a palavra?

- A necessidade do ser humano em simplificar o imediato facilmente o leva a perder-se em caminhos tortuosos e superficiais.

- Exacto! Porque não abrir os canais receptores e deixar o nosso corpo funcionar como antena?

19 janeiro 2007

Crer

Numa síncopa desfaz-se uma hora.
Numa hora constrói-se um dia aquilo que se quis para uma vida.

Haja vontade.

Ficar à espera de quem nunca alcança.

15 janeiro 2007

Viver

Doçuras que se perpetuam na vastidão do ser encontram no sorriso o espelho dos dias.

08 janeiro 2007

Trilhos

A triste denúncia de quem nunca chegou perde tamanho perante a infindável dor de quem nunca partiu.

29 dezembro 2006

Transição

Um diamante vibra na montra de um armazém de imagens.

Pérolas que se fazem porcas.
Porcas que se fazem parafusos.
Parafusos que se fazem pregos.
Pregos que se fazem ataúdes.

Fechar uma janela para abrir um portão.

28 dezembro 2006

Pai

Porque aquele abraço ficou esquecido.
Porque aquela palavra não saiu.
Porque aquele olhar atravessou.
Porque aquele gesto se perdeu.

Porque deixaste um vazio.

E dói não poder partilhar contigo os passos que dou.

27 dezembro 2006

Chamamento

Numa massa amorfa consegue identificar um elo com o mundo.

Simples...

Evidências do sentir.

21 dezembro 2006

O Vampiro

Houve dias em que chegou a entendimentos, mas nunca deixaram de ser os seus. Tudo o resto lhe parecia ingnóbil. Toda a gente, tudo o que faziam, tudo o que diziam.

Houve dias em que não conseguiu entender a mais básica das equações, mas nunca deixou de ser a sua equação. Ninguém, nenhuma das pessoas que o rodeavam foi capaz de lhe abrir os olhos para o que se esplanava à sua frente.

Andou. Correu. Parou. Passeou, muito!

Sempre precisou de pessoas. Sempre se alimentou delas. Sempre lhes sugou a essência, o âmago. Ninguém lhe percebeu essa característica. Toda a gente se sentia bem na sua companhia.

Injusto é adjectivo que nunca puderam associar à sua pessoa.

Mas sempre foi quem queriam que fosse.

Opções

A dor não é mais que um estado de prazer dissimulado.

19 dezembro 2006

Decadência

Rolando um limão numa fraga de espelhos como barril que se despenha no Iguaçú.

Interdito à mente.
Disponível ao corpo.

15 dezembro 2006

Soluço

Quantas vezes.
Tanta gente.

Talvez um parque.
Talvez uma diversão.

Porque a sério só se morre.

14 dezembro 2006

Câmbio

Na memória carrega o peso de uma balança que não comprou.

Vendeu a camisola com que matava a fria noite.

Comprou a felicidade alheia.

11 dezembro 2006

Protecção

Tenta passar por entre um sobretudo e um guarda chuva.
Tenta cantar num karaoke sem ecrã.

Agarra quem a si se agarra.

Cerca uma caixa com dois passos e um beijo.

07 dezembro 2006

Presença

A mão pesada do consolo afaga o mais incauto.

Penas que caem ao ritmo da chuva.
Lágrimas que se provam na cadência de um soluço.